
Quando eu tinha lá para os 14, lembro como se fosse ontem a primeira vez que a professora de artes entrou pela porta da 8ª série "A". Lílian era o nome dela, entretanto essa não foi a primeira informação que ela nos deu. Aquela morena de cabelos encaracolados e feições simples apenas fitou a sala com seus olhos dissimulando nervosismo e soltou enquanto escrevia no quadro à vista de 4 dúzias de alunos: "O que é arte?". Inicialmente a turma inteira calou-se por longos 10 segundos, até que o piadista aqui lançou: "
É uma estátua de um homem defecando, fingindo estar pensando." Muitos seguraram o riso, contudo, inesperadamente, ela, a discente, riu. E hoje talvez acho que foi esse sorriso quem fez os meus conceitos mudarem completamente. A partir daí, a turma mostrou os dentes e uma garoa de respostas começou a descer:
"É a pintura e a escultura!",
"É toda forma de expressão.". E a chuva tomava corpo, até que a sala inteira estivesse inundada de conceitos sobre o que é a arte.
Não somos mais estudantes do ensino fundamental, nem tampouco sou a Wikipedia com o seus
conceitos dessa palavrinha de quatro letras e
infinitas definições. Que o homem evoluiu, todo mundo já sabe (sem precisar sequer voltar milhões de anos para os fósseis humanóides). Basta olhar a pratileira do seu supermercado preferido, ou a catraca do ônibus, ou até mesmo o solado do seu tênis. Isso tudo tomou forma, mas não foi da noite para o dia, muito menos caído do céu. Foi preciso inquietude, foi preciso o atípico, o choque, o riso da professora, para que tudo se formasse... ou transformasse. E é sobre essa transformação que quero discorrer esse texto.
Pintura, escultura, música... dança, literatura, teatro... cinema.
Essas são as tão famosas sete artes. Certo que esse conceito de sete artes abrangeu durante muito tempo aquilo que se é considerado arte. Mas como eu disse antes, o mundo inevitavelmente tem que sofrer mudanças, caso contrário agiríamos como as abelhas, as quais só repetem ações: polenizar, produzir mel, alimentar a rainha...
Inclusive, vejam o filme "Bee Movie"
, acho que esse filminho infantil retrata bem o que tento dizer sobre essa quebra de rotina, de conceitos, de paradigmas.Agora entra uma pausa: o conceito das sete artes é coisa relativamente recente e completamente dissociado quanto a existência ou forma de arte. Em outras palavras, não foi primeiro criado o conceito de música para ela então existir. Veja o cinema: antes de ser inventado, não tinha nem o cabimento dele existir, porque, afinal, o que era o cinema?
A arte é justamente o contrário de enjaular ou enquadrar.
Voltando ao que interessa, mas continuando com o exemplo do cinema (o qual pode ser aplicado às demais artes). A princípio o cinema só mostrava imagens de pintura ou escutura (arquitetura), depois passou a exibir histórias, obras, músicas, dança... até que virou o que é hoje. Não sei se o leitor percebeu, mas o cinema só agrupou e incrementou toques para todas as artes supostamente anteriores. E ele é uma arte, é uma inquietude, é uma expressão, é uma transmissão de sentimentos, ideias e emoções, como as outras seis.

Uns dizem que histórias em quadrinhos (HQ's) e fotografia são a oitava arte. Há até aqueles que defendem o Vídeo Game como nona. Quanto ao Vídeo Game, concordo, mas HQ's e fotografia já estão bem enquadrado nas outras artes, não precisa de uma só pra elas. Como o título sugere, por que não atribuir à publicidade na lista das tão imponentes artes? Ora veja, se ela se apropria de todas as formas de artes existentes (desde a música até o cinema) qual o motivo, então, de não encaixar sua poesia (no sentido mais conotativo) no ramo de artes? A publicidade desperta sentimentos, provoca — como nenhuma outra — inquietude, dúvidas, emoções.
Aí então você pode me dizer:
"mas a arte não tem o espírito de enganar pessoas ou vender!" Quanto ao
vender, sinto muito informar que se você pensa assim, vá morar num mundo sem capitalismo e nunca pague R$1 num disco, numa entrada de cinema, nem num quadro; já quanto ao
enganar, acho até perda de tempo entrar numa discussão tão desnecessária, visto que arte é
expressão e
impressão, ou você pensava que um dia você iria encontrar alguém com aquela boca torta dando um grito mudo por aí?
Adaptação x Evolução.
Muitos geneticistas poderiam discorrer longos textos sobre essas duas palavras e não quero me dar o mérito disso. Só queria lhes mostrar que publicidade é a
ADAPTAÇÃO mais recente da arte ao mundo capitalista e a
EVOLUÇÃO mais gritante da mesma. Proponho sim a publicidade como oitava arte.